PEDRO GONÇALVES

 

"VIVO ISTO COM ALMA E PAIXÃO"
 
 

Na sua tertúlia, em conversa animada, o bandarilheiro contou como nasceu a ‘afición’ pelos toiros, emocionou-se a descrever o sentimento de ser toureiro e o orgulho de usar castanheta. Recordou os momentos mais marcantes dos seus vinte e dois anos de carreira. Dia 19 de junho estará presente na alternativa de Filipe Vinhais, no Cartaxo, a mesma praça onde há vinte e nove anos, fardado de forcado, pegou o seu primeiro touro

 

Em miúdo acompanhava o tio Joaquim Gonçalves, também ele, bandarilheiro, nos treinos na praça Celestino Graça e começou a bandarilhar na tourinha, mas o que gostava mesmo, era de pegar touros.

 

Foi forcado no grupo de forcados de Azambuja durante nove anos, pegou 73 touros de caras, até que um dia disse, «pronto já estou cansado». Como tinha aptidão para bandarilhar, o tio aconselhou-o a seguir essa carreira e fez dele um toureiro.

 

Aos 19 anos entregou-se a ser bandarilheiro, recebeu a ovação do público e ganhou troféus. Hoje, aos 43 anos, é bandarilheiro e integra  quadrilhas como as de Pedrito Portugal, José Augusto Moura e Luís Vital Procuna.

 

Como é vencer o medo e enfrentar o touro?

São momentos fantásticos e de muita adrenalina. Na presença do touro, o medo passa e sinto confiança.

 

Antes de irmos para a arena sente-se aquele medo, aquele receio, mas depois na presença do touro, é o mistério do toureio, conseguimos controlar o medo e é fantástico sentirmos o touro.

 

O que melhor recorda do tempo de forcado?

Fiz grandes amizades que duram ainda hoje. Nos grupos de forcados somos um grupo de homens que nos juntamos para pegar touros, conviver e beber copos. Recordo-me de, em Santarém, por ser na minha terra, quando ganhei o troféu de melhor pega, com um touro de 620 quilos do Paçanha. Foi um dos momentos mais giros da minha carreira de forcado. 

 

Ser toureiro obriga-o a uma grande preparação física? Vai ao ginásio? Como é o seu dia a dia?

Todos os dias vou ao ginásio de manhã para treinar, de tarde pego no capote e vou bregar e pôr pares de bandarilhas e vou aos tentaderos ou vou para o campo ver os touros, que é uma das coisas que mais gosto de fazer, passa-se um dia maravilhoso, só mesmo a viver isto é que percebemos o gosto que nos dá.

 

Transporta a postura de toureiro para a sua vida?

Sim, penso que sim, nós os toureiros, somos um pouco vaidosos, a forma de andar, e as pessoas reparam nisso, por exemplo o uso da castanheta é o símbolo de ser toureiro.

 

Como costuma ser a sua preparação, como é o dia de corrida de um bandarilheiro?

Existe sempre um certo receio, um certo nervosismo, especialmente se é em vésperas de uma corrida importante como em Sevilha. Penso muito mais vezes no público, e de como tenho de estar bem e não falhar. Tento ser sempre o melhor, é para isso que treino. 

 

Quando acabo de tourear, e se corre bem, é uma alegria! É a sensação de ter conseguido mais um triunfo. Vivo isso com muita alegria e com uma grande paixão.

 

É muito boa a sensação de bandarilhar um touro difícil e conseguir fazê-lo bem. É mais um triunfo. É o que me faz querer mais uma corrida. Habituei-me a isto e não me imagino a fazer outra coisa.

 

Qual a corrida que mais o marcou desde sempre?

O dia da minha alternativa foi um dia muito importante. Quando o mestre António Badajoz, um dos melhores bandarilheiros do mundo se despede no Campo Pequeno, e me dá a alternativa, foi um dos dias mais emocionantes que tive como toureiro. 

 

Também recordo grandes momentos em Sevilha. ‘La Maestranza’, é a praça de touros que mais me encanta. 

 

Os melhores momentos nem são no fim da temporada quando recebemos os troféus, mas sim quando recebemos a ovação do público, e graças a Deus, ao longo da minha carreira tive momentos extraordinários, em várias praças em Portugal, Espanha e França, e são esses os momentos que recordo com saudade.

 

Qual a figura do toureio que elege?

O António Bienvenida e o António Ordoñez, são para mim, duas figuras máximas do toureio e um exemplo a seguir pelos jovens que ambicionam seguir esta carreira.

 

É mais fácil entrar no mundo do toureio quando já se nasce ele?

Sim. Mas alguém que queira ser toureiro, nós damos a mão e ensinamos, é só aparecer na Escola de Toureio Joaquim Gonçalves, no CNEMA, que é onde treinamos, que venha ter comigo, venha ver o que é ser toureiro, pegar numa muleta, e venha ver o carinho dos ganadeiros, é um grande convívio, é o que nos leva a ter esta paixão por isto.

 

Como surgiu a Escola de Toureio Joaquim Gonçalves?

Eu, o meu primo Luís Miguel, e toda a família Gonçalves, quisemos prestar uma homenagem ao nosso saudoso tio Joaquim Gonçalves.

 

De pequeno é que se aprende e quero dar oportunidade a outros jovens. Com cinco anos já se percebe o jeito e o gosto e já dá para orientar uma criança. O meu filho Francisco, que tem agora oito anos, desde pequeno tem gosto e um jeito extraordinário e se quiser pode vir a ser uma figura do toureio.

 

Gostava que o seu filho seguisse as suas pegadas?

Sinceramente não. Quer dizer, eu adoro vê-lo tourear, mas custa-me muito vê-lo lá dentro, ainda que seja com uma bezerrinha pequenina, sofro muito mais do que sofro comigo.

 

O triunfo será sempre em Espanha?

Sim, o triunfo é em Espanha e tem que acontecer, estou à espera desse momento e assim que ele chegar sei que o vou agarrar, sei as minhas qualidades e tenho a minha cabeça focada no toureio. Não para ser um qualquer, mas para ser o melhor, quando começo a treinar meto na cabeça que quero ser o melhor, essa mentalização tem de existir sempre em nós.

 

É isso que o move?

Sim, é isso que me move, ser o melhor, é para isso que treino, é para isso que luto, caso contrário não valia a pena e ia fazer outra coisa na minha vida. Vivo isto com alma e paixão. O meu sonho é estar nas praças grandes e bandarilhar, que é o que eu gosto.